família

Acordei estremunhado. O corpo lesto que demorava a recordar. As
pessoas agitavam-se ao longo da carruagem sem motivo. Achava eu. Não era assim. A viagem terminava, pouco mais faltava do que alguns minutos.
Estendiam os braços, abriam bocas, esfregavam olhos. Outros ainda nem
acordaram, como eu, iam acordando, alguns arrumavam bagagem, enquanto outros esperavam, de olho na janela. Ao contrário, achava eu, de todos aqueles ocasionais companheiros de trabalho, sentia-me triste: não só porque me iria despedir daquela pequena família imprevista como, não saberia depois que rumo tomar. Quanto à família era a saudade da que deixara. Quanto ao futuro, incerto é, calhava bem sabe-lo já, para o mudar agora.

O Fraco, Franz E., 2ª Parte: A viagem.

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O Casamento

Queremos sair. Saímos. Voltamos atrás, sempre ao mesmo ponto, repetindo a mesma merda, como se a cidade se alongasse até tão longe para voltar a entrar pela mesma avenida, agora do lado contrário, passando

Cabrão

pelos mesmos buracos e acidentes, pelo mesmo barulho e estridências. Há um lugar fora. Ficas dentro. Aqui e ali segredamos o olhar aos outros que passam -“Dizes-me por onde vou? Dizes-me como?” – Não sabem nem podem ajudar.

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1ª Parte: Franz E.

Franz E. nasceu em meados do Inverno de 1967, no frio do Norte, Berna,
Suíça. Um ano depois, os pais, jovens, Karl E. e Maria Mayte, estavam súbita e
inesperadamente desconfiados. As notícias vindas da Alemanha falavam das
crescentes manifestações, sobretudo juvenis, que apelavam para a quebra d’O
Silêncio sobre o holocausto e a Culpa Alemã, manifestações que pareciam
esconder uma onda regional-imersa de neonazismo: e também os absorvia a
perspectiva aterradora do ambiente.

início, p.1, excerto, versão do meio, out. 2014

O Fraco – edição do meio

Esta é uma edição d’O Fraco que espera outra. Não se sabe quando. Nem em que termos. Esta é aquela que já não tem vergonha de sair à rua. Se tem pernas, não sabemos se andará. Qual pai, espera sempre que os filhos andem. Deu-lhes pernas. Pensa que são das melhores. Então andem. Pode não ser assim. Bem verdade é.

Marketing_O Fraco out 2015_V1

fraco não sou

-“O teu problema é de muitos, não és uma pessoa feliz. Faz-te feliz dizem uns, como? Pergunto eu. Mexe-te insistem, as mãos nos bolsos não ajudam nada.” – se fui um fraco não sou um fraco, mas sei que a fraqueza faz parte de mim, e que se perguntas “O que estás aqui a fazer? Ou, qual é o caminho? Só há um que pode responder. Tu!” – e imperfeita é a vida e tudo o que fazes ou fizeste ou vais fazer. Como imperfeito são as mulheres e os homens. As crianças e os jovens. Tudo. Disseste tu e sei eu. Que fraco me sinto, mas que fraco não sou, só imperfeito.

Franz E., O Fraco, 7ªParte, p.217

tocar-lhe ao de leve

– “Sabes … muitas vezes queria apenas tocar-lhe a vida ao de leve, tão levemente que não lhe causaria transtorno, mas isso não é possível, causamos sempre transtorno, é verdade não queria mesmo, não queria perigar a sua calma, o seu sentir, o seu sorriso, a sua gargalhada, a sua felicidade ou essa tarde descansada ao redor do lago adormecido sobre a areia morna com o resto de tarde afadigado e a noite a espreitar pelo canto do olho. Mas não é assim. Existimos!, por isso fazemos sofrer e sofremos também.” – comentou.

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